«Esta coisa de gostar de alguém»
por Fernando Alvim
«Esta coisa de gostar de alguém não é para todos e por
vezes — em mais casos do que se possa imaginar — existem pessoas que pura e
simplesmente não conseguem gostar de ninguém. Esperem lá, não é que não queiram
— querem — mas quando gostam — e podem gostar muito — há sempre qualquer coisa
que os impede. Ou porque a estrada está cortada para obras de pavimentação. Ou
porque sofremos de diabetes e não podemos abusar dos açúcares. Ou porque sim e
não falamos mais nisto. Há muita gente que não pode comer crustáceos, verdade? E
porquê? Não faço ideia, mas o médico diz que não podemos porque nascemos assim e
nós, resignados, ao aproximar-se o empregado de mesa com meio quilo de gambas
que faz favor, vamos dizendo: “Nem pensar, leve isso daqui, que me irrita a
pele.”
Ora, por vezes o simples facto de gostarmos de alguém pode
provocar-nos uma alergia semelhante. E nós, sabendo-o, mandamos para trás quando
estávamos mortinhos por ir em frente. Não vamos. E muitas das vezes sabendo
deste nosso problema escolhemos para nós aquilo que sabemos que invariavelmente
iremos recusar. Daí existirem aquelas pessoas que insistem em afirmar que só se
apaixonam pelas pessoas erradas. Mentira. Pensar dessa forma é que é errado,
porque o certo é perceber que se nós escolhemos aquela pessoa foi porque já
sabíamos que não íamos a lado nenhum e que — aqui entre nós — é até um alívio
não dar em nada porque ia ser uma chatice e estava-se mesmo a ver que ia dar
nisto. E deu. Do mesmo modo que no final de dez anos de relacionamento, ou
cinco, ou três, há o hábito generalizado de dizermos que aquela pessoa com quem
nos casámos já não é a mesma pessoa, quando por mais que nos custe, é
igualzinha. O que mudou — e o professor Júlio Machado Vaz que se cuide — foram
as expectativas que nós criámos em relação a ela. Impressionados?
Pois bem, se me permitem, vou arregaçar as mangas. O que é
difícil — dizem — é saber quando gostam de nós e quando afirmam isto, bebo logo
dois “dry” Martinis para a tosse. Saber quando gostam de nós? Mas com mil raios,
isso é o mais fácil, porque quando se gosta de alguém não há desculpas nem “Ai
que amanhã não dá porque tenho muito trabalho”, nem “Ai que hoje era bom mas
tenho outra coisa combinada” nem “Ai que não vi a tua chamada não atendida”.
Quando se gosta de alguém — mas a sério, que é disto que falamos — não há nada
mais importante do que essa outra pessoa. E sendo assim, não há SMS que não se
receba porque possivelmente não vimos, porque se calhar estava a passar num
sítio sem rede, porque a minha amiga não me deu o recado, porque não percebi que
querias estar comigo, porque não recebi as flores que pensava não serem para
mim, porque não estava em casa quando tocaste.
Quando se gosta de alguém temos sempre rede, nunca falha a
bateria, nunca nada nos impede de nos vermos e nem de nos encontrarmos no meio
de uma multidão de gente. Quando se gosta de alguém não respondemos a uma
mensagem só no final do dia, não temos acidentes de carro, nem nunca os nossos
pais se sentiram mal a ponto de impossibilitar o nosso encontro. Quando se gosta
de alguém, ouvimos sempre o telefone, a campainha da porta, lemos sempre a
mensagem que nos deixaram no vidro embaciado do carro desse Inverno rigoroso.
Quando se gosta de alguém — e estou a escrever para os que gostam — vamos para o
local do acidente com a carta amigável, vamos ter com ela ao corredor do
hospital ver como estão os pais, chamamos os bombeiros para abrirem a porta, mas
nada, nada nos impede de estar juntos, porque nada nem ninguém é mais importante
do que nós.»

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