terça-feira, 17 de abril de 2012

Porque o blog é para isto mesmo.
Porque o blog é uma espécie de sítio altamente fixe para desabafar.
Porque é quase melhor que um amigo: 1º Não fala (não chateia), 2º está realmente sempre aqui (at anytime and whenever you need)...
Aqui vai um post sobre o melhor sítio do mundo.


A minha praia.

Desde pequena que esta praia é a minha praia.
Começou por ser o sítio onde ia de férias porque sim, porque os pais é que decidiam. Eu só queria um sítio para atracar a minha piscina, os meus 20 baldes e as minhas duas toalhas (uma para meter o cuzinho, a outra para meter os pés..depois de lavados com água do balde.)
Depois, houve uma fase em que passou a ser o sítio mais louco do ano. Mal podia esperar para passar um mês inteiro a fazer praia e a sair à noite que nem uma desgraçada.
Estava no auge na adolescência e pensava que sair à noite com um gajo giro (as verdades são para se dizer e ainda hoje o rapaz continua engraçado...e igualmente cabrãozinho)era o espontente máximo da felicidade. Enganei-me, pois claro.
Mas não havia palavras para descrever a loucura das noites quentes..ok, take it easy. Não estou a falar de sexo on the beach. Era apenas uma adolescente e naquela altura as meninas ainda se davam ao respeito. Entenda-se loucura por beber coca-cola numa esplanada, jogar matrecos até às quinhentas, dançar sem parar e dar uns beijinhos na boca. De preferência, às escondidas à porta do prédio e no dia seguinte fingir que nada aconteceu.
Isto durou anos.
Até que cresci, fui para a faculdade, arranjei outro namorado e mudei.
As prioridades mudaram. Completamente.
Comecei a ter que me esforçar a sério, a ter que pensar no meu futuro, a ter que pensar o que queria ser quando fosse grande.
Tudo isto me fez ver a minha praia como um refúgio, em vez de um destino de loucura.
As coisas mudaram tanto que passei a fugir (por vezes, literalmente)das pessoas e dos locais do costume.
Tenho praia a poucos passos de casa, fica mesmo do outro lado da rua, mas prefiro fazer uma caminhada e ir para a outra ponta da vila.
Prefiro ir para a última praia, para onde ninguém me conhece e eu possa ficar a dar uns belos mergulhos, a ler sem horas, a ouvir música sem ouvir um "Olá", "Estás por cá?", "Logo a noite queres ir tomar um copo?"...
Tudo isso não tem preço.
Lembro-me de estar sentada na areia d'a minha praia e ponderar sobre decisões importantes da vida.
Lembro-me de chorar naquela areia porque quem amo estava a milhares de km de distância, lembro-me de suspirar de tão apaixonada, lembro-me de fazer planos sobre tudo e mais alguma coisa.
Gosto de ser anónima e desconhecida.
Mas gosto de me sentir sempre em casa.
Gosto de ir na minha caminhada e fazer um adeus aos senhores dos restaurantes que andaram comigo ao colo.
Gosto de dizer "Olá" às vizinhas velhinhas que dizem sempre o mesmo: "Ah valha-me Deus, estás cada vez maior" (almas caridosas que cuidaram de mim quando a varicela decidiu chatear-me nas férias do verão).
Lembro-me particularmente da Tucha. A cadela caniche que eu fazia questão de passear todos os dias.
Sei que a cadela já morreu, mas ainda hoje faço questão de ir ver a senhora da Tucha :´)
A felicidade resumia-se, e tento que ainda se resuma, a coisas tão simples.
Gosto daquelas noites de verão, onde me sento na varanda a comer porcarias (claro. Há coisas que nunca irão mudar).
Gosto de estar lá em cima a cuscar os modelitos de verão das pindéricas.
Gosto de ouvir as ondas e ganhar forças para mais um ano, para mais uma etapa.
Há lugares tão secretos que não os quero partilhar com ninguém.
A minha cara metade nunca foi ao meu refúgio.
Poderia ser muita louco ter uma casa de praia para me enfiar lá com o meu namorado e dar asas à imaginação.
Mas eu não quero.
Eu-não-quero.
Quero preservar aquele lugar, apenas com memórias da minha infância e adolescência.
Alí serei sempre criança.
Se ele me pode roubar isso? Talvez não.
Mas eu tenho esta mania, e ele respeita-a.
Alí sou só eu.
Com o meu ipod na mão, com o passo acelerado, com a toalha no ombro a caminho d'a minha praia.
Todos os anos, visito as típicas lojas e compro uma pulseira ou outro acessório qualquer.
Tenho milhentos, é verdade.
Mas estes gestos fazem-me sempre voltar ao início.
Fazem-me sempre voltar a renascer.


Há preço para a paz de alma?


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